Uma coisa que a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, aprendeu nos seus anos de atuação, é que reconstruir a autoestima de forma consistente após um relacionamento abusivo costuma parecer um processo vago, abstrato e difícil de nomear, mas na prática cotidiana pode ser organizado em passos concretos que tornam o caminho consideravelmente menos esmagador.
Esses passos concretos não seguem uma ordem rígida e predeterminada nem um prazo fixo e determinado, mas costumam se repetir, em alguma medida importante, na maioria das trajetórias de recuperação bem-sucedidas observadas ao longo da prática clínica com diferentes mulheres.
Primeiro, reconheça os pensamentos automáticos negativos
Após meses ou anos de críticas constantes vividas dentro de casa, é comum que a própria mente continue repetindo, internamente e de forma automática, frases que o parceiro dizia com frequência, como se fossem verdades absolutas e inquestionáveis sobre quem a pessoa realmente é.
O primeiro passo prático e essencial é simplesmente notar quando esses pensamentos automáticos aparecem no dia a dia, sem necessariamente tentar combatê-los de imediato: perceber que aquele julgamento interno tem uma origem externa específica e identificável já começa a criar alguma distância saudável entre a pessoa e a crença que antes parecia absoluta e inquestionável.
Depois, pratique pequenas decisões autônomas diárias
Escolher o que vestir logo pela manhã, decidir sozinha e com calma o que comer no almoço, expressar uma opinião sincera e verdadeira sem consultar mais ninguém antes: cada uma dessas decisões pequenas e aparentemente banais reconstrói, aos poucos, a confiança na própria capacidade de julgamento sobre a própria vida.
Taiza Tosatt Eleoterio pontua que a repetição consistente e diária dessas pequenas escolhas cotidianas costuma ter mais impacto real ao longo do tempo do que qualquer grande decisão isolada e pontual, porque treina, de forma gradual, consistente e sustentável ao longo do tempo, um músculo emocional que ficou bastante enfraquecido durante toda a convivência abusiva vivida anteriormente.
Reconecte-se com pessoas e atividades deixadas de lado
Relacionamentos abusivos e controladores costumam isolar a pessoa de amizades, hobbies e interesses pessoais que existiam antes da relação começar a se instalar. Retomar esses vínculos e atividades, mesmo aos poucos e sem nenhuma pressa, ajuda a resgatar partes importantes da própria identidade que ficaram em segundo plano por muito tempo de convivência.
Esse processo de reconexão gradual não precisa ser feito de uma vez só, e retomar apenas uma amizade querida ou uma atividade prazerosa por vez já costuma trazer benefícios reais, concretos e perceptíveis para a autoestima que está em pleno processo de reconstrução gradual.
Busque apoio profissional para acelerar o processo
Taiza Tosatt Eleoterio entende que, embora os passos anteriores ajudem bastante e sejam importantes, o acompanhamento psicológico especializado costuma acelerar e aprofundar de forma significativa esse processo de reconstrução, especialmente quando existem crenças negativas muito enraizadas e antigas sobre o próprio valor pessoal.
Esse tipo de apoio profissional especializado oferece um espaço estruturado e seguro para elaborar experiências específicas e dolorosas que continuam pesando, algo que os passos práticos e concretos do dia a dia, sozinhos, nem sempre conseguem resolver por completo ou de forma verdadeiramente duradoura ao longo do tempo.
Cada passo, por menor que pareça, conta de verdade
Por fim, algo que Taiza Tosatt Eleoterio frisa como sendo essencial é lembrar que nenhum desses passos precisa ser executado com perfeição absoluta, e recuos e retrocessos ao longo do caminho não significam fracasso pessoal nem ausência de progresso real e genuíno.
O que importa de verdade e realmente conta é a direção geral da trajetória inteira: cada pequena ação repetida ao longo do tempo, mesmo com dias mais difíceis no meio do caminho percorrido, contribui de verdade para reconstruir uma relação mais saudável, gentil e verdadeira consigo mesma.
